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Iêda Oliveira, diretora Eletra: “O retrofit acelera a eletrificação e fecha o ciclo da sustentabilidade”

Especializada em tecnologias de tração elétrica, Eletra aproveitou experiência no mercado de ônibus elétricos para criar solução retrofit que converte frotas de caminhões a combustão em puramente elétricos

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Iêda Oliveira, diretora da Eletra, destaca como pontos fortes do retrofit acelerar a eletrificação, renovar as frotas e completar o ciclo de sustentabilidade – Foto: Divulgação Eletra

Em vez do termo “eletrificação”, talvez, o ideal para definir a transformação ocorrendo na indústria automobilística seja “eletrificações”. Por conta da amplitude total e particularidades de cada segmento e região. E um segmento em especial reflete toda a dimensão: os veículos comerciais. Cujos desafios para implementação no Brasil estendem-se além dos técnicos.

E neste cenário de profunda transformação da indústria automobilística, inúmeras projeções apontam os veículos para entregas urbanas como grandes responsáveis pela disseminação da mobilidade elétrica. Segmento no qual o Brasil possui algumas empresas com tecnologias desenvolvidas e aplicadas no mundo real.

Caso da Eletra. Com mais de duas décadas no mercado, a empresa de São Bernardo do Campo (SP) é especializada em tecnologias de tração elétrica para trólebus, ônibus puramente elétricos e híbridos. Mais recentemente, desenvolveu solução retrofit para converter frotas de caminhões a combustão em elétricos, e acelerar a expansão da eletrificação.

O retrofit foi o ponto de partida para a entrevista com Iêda Oliveira, diretora comercial da Eletra e coordenadora do Grupo de Veículos Pesados da Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE). Uma longa conversa que se estendeu para outros tópicos e rendeu um panorama da mobilidade elétrica comercial no Brasil.

Zev.News – Eletra atua há anos no mercado de trólebus, ônibus elétricos e híbridos. Em 2018 lançou o retrofit, que, resumidamente, converte frotas de caminhões a combustão para elétricos. O que motivou a iniciativa?

Iêda Oliveira - Eletra tem mais de 20 anos de história. Em 2005 fizemos um caminhão híbrido em parceria com uma faculdade. Em 2016 fizemos um caminhão híbrido para distribuição de motos. Sondávamos o mercado. O que facilitou é que nesses 20 anos nunca tivemos um chassi para elétricos. Nos especializamos em fornecer sistemas de tração para chassis de mercado. Todos os mais de 400 ônibus que temos em operação com tecnologia Eletra utilizam os mesmos chassis dos modelos diesel. Aproveitamos sistemas de freios, pneumáticos.

Então, começamos a perceber que o mercado de cargas teria potencial enorme para tração elétrica. Porque as grandes empresas estão totalmente compromissadas com metas de redução de emissões e logística que distribua porta a porta. Tanto que participamos dos dois primeiros protótipos feitos pela Volkswagem (que se tornariam o e-Delivery) em 2017.

Zev.News – Qual dificuldade do mercado Eletra soluciona com o retrofit? E como foi a resposta?

Iêda – A resposta do mercado foi imediata. A gente pensou: “Qual a dificuldade hoje?” Lançar um produto (veículo) é um processo gigantesco e global. Não se lança produtos todo o dia. Quando se olha as frotas, há amplo leque de veículos. Imagine uma linha (elétrica) que atinga esse mercado. Percebemos uma oportunidade muito grande com o retrofit. Conseguimos transformar os caminhões das frotas em elétricos. O que permite acelerar muito as metas dessas marcas.

Zev.News – E qual o perfil dos clientes do retrofit?

Iêda – O foco são as grandes frotas. É possível atender clientes particulares. Mas o foco são grandes frotas. O retrofit permite eletrificar qualquer caminhão. De 3.5 até 58 toneladas, nos mais diferentes contextos. É uma ferramenta que permite acelerar a eletrificação.

Zev.News – Eletra tem o caso emblemático de Ambev. Qual a motivação para empresas deste porte adotarem o retrofit?

Iêda – Tudo começa com as metas. Ambev, por exemplo, tem metas muito grandes já anunciadas para reduzir emissões. O charme do retrofit é que os caminhões ficam mais tempo na frota – até 10 anos. A vida média de um caminhão no Brasil é 27 anos. Imagine todo o esforço ambiental, e todo ano a empresa revender entre 50 e 100 caminhões, que ficarão até mais 20 anos poluindo. Na conta ambiental isso tem um peso muito grande. O retrofit zera as emissões do caminhão. Quando se substitui um caminhão a diesel por um elétrico, a conta de carbono não é 100%. Porque um caminhão diesel foi para o mercado (de revenda). Quando transforma, sim.

A segunda força do retrofit é que tudo o que sai do caminhão, tanque, motor, todos os componentes da transformação, são reciclados. Vão para um parceiro certificado e viram matéria-prima. E no final dessa segunda vida útil (pós-eletrificação), o caminhão também é reciclado. Fecha o ciclo de sustentabilidade. E tem sido visto como um dos maiores recursos para metas ambientais.

Zev.News – Além de acelerar a eletrificação e fechar o ciclo de sustentabilidade, há mais benefícios proporcionados pelo retofit?

Iêda – O retrofit auxilia a renovação da frota. Grandes marcas colocam no mercado todo o ano perto de até 3 mil caminhões. Há todo um mercado de empresas esperando para comprar esses caminhões. Ao transformar esses caminhões em elétricos, esse mercado vai ter que ir para o caminhão novo. O retrofit auxilia na renovação da frota. É uma ferramenta que ajuda nas duas pontas. Tanto coloca caminhões novos no mercado, quanto permite eletrificar a frota que está aí. Tem que olhar de longe. Vai gerar um novo mercado.

Zev.News – Imagino que o retrofit também ajude o TCO (Custo Total de Propriedade) das frotas...

Iêda – Depende muito do tipo de operação. A manutenção é mais barata. A interferência no caminhão é menor. Tudo isso entra no TCO. Hoje, economicamente, a maior vantagem ao comparar o caminhão elétrico está no combustível. Há ganho muito grande no combustível. Mas há outros valores agregados: o caminhão fica mais tempo disponível – não é necessário manutenção no motor, troca de óleo – temos um caminhão em operação na Ambev que opera de segunda à sábado, o tempo todo.

Há operações com retorno antes de 5 anos. Outras, em 3 anos. O leque é muito grande. Há caminhões que rodam 30 km por dia. Outros 150 km, então, imagine isso no impacto do TCO conforme a operação.

Zev.News – E quais as principais aplicações para os caminhões retrofit?

Iêda – As operações urbanas são priorizadas. Por vários motivos: consumo, distribuição sem ruídos, maior disponibilidade de frotas. Mas há caminhões operando dentro de fábricas. E já tivemos consultas para plantações de algodão. O algodão é afetado pela fuligem dos caminhões diesel. Então, tem um leque muito grande.

Zev.News – Além do retrofit, Eletra também fornece a infraestrutura para recargas. Por que a empresa decidiu entrar nesta área?

Iêda – Quando desenvolvemos os primeiros ônibus elétricos, percebemos que os carregadores tinham grande impacto na conta financeira. Principalmente porque eram importados. Desenvolvemos, com tecnologia nacional, a linha de carregadores de 15 kW até 120 kW.

Zev.News – Eletra tem planos para lançar um caminhão próprio? Afinal, a empresa domina as tecnologias envolvidas. Digamos, expandir o retrofit para um produto completo.

Iêda – Não é descartado. Entendemos o seguinte: lançar um caminhão elétrico completamente novo não é só tecnologia. É necessário uma rede de assistência técnica nacional. Acreditamos em parcerias. Por entendemos como necessário aproveitar essa rede instalada. A maior dificuldade das empresas entrando no Brasil é instalar assistência técnica. Quem não pensar nisso, não vai durar 4 anos no mercado. Se começarem problemas com as frotas, esqueça. Frotas remuneram por disponibilidade. Entendemos que com o retrofit, customizado, ganhamos por aproveitar a rede já instalada. Chassi, carroceria, não tem nada de especial. São os utilizados nas frotas diesel. É óbvio que estamos abertos a parcerias. Se tivermos um grande player querendo lançar um caminhão novo e queira trabalhar com a tecnologia, temos disponibilidade. Mas é difícil. O mercado de (caminhões) novos é muito global. Um modelo é lançado. Espera-se. Lança o segundo. Percebemos que o mercado de cargas está com mais apetite do que esperar esses vários modelos. Mas seria possível, porque seria chassi e cabine.

Zev.News – Aliado ao desenvolvimento tecnológico, mundo afora há visão estratégica para tentar convergir os diferentes agentes da indústria automobilística a fim de acelerar a disseminação da mobilidade com baixa emissão de carbono, e posicionar seus respectivos países para o futuro. Na sua visão, como está essa sintonia no Brasil?

Iêda – Vou dizer assim, o Brasil tem uma cultura que é muito ruim: cravar em uma solução. Não acredito numa solução única. Um País da dimensão do nosso não pode trabalhar com uma solução. E fica aquela disputa: tem que ser biocombustível; tem que ser biodiesel; tem que ser álcool; tem que ser elétrico... Tem que ser tudo. As tecnologias num país com as dimensões do Brasil precisam ser analisadas conforme o melhor impacto. Do ponto de vista ambiental, e do ponto econômico. Isso atrasa muito o Brasil.

Quando a gente começou, tinha uma pressão ligada ao álcool e ao biocombustível para não deixar o elétrico entrar. Isso não faz sentido nenhum. Só temos álcool hoje porque tivemos o Próalcool. São políticas públicas que incentivam. Não quer dizer que o País inteiro, com uma frota desse tamanho, tem que usar só álcool. Ou usar só eletricidade. Ou usar só diesel. Pelo contrário. O que faz o país evoluir do ponto de vista tecnológico é ter um mix de tecnologias. E o Brasil tem todas as tecnologias.

Zev.News – Eletra tem centenas de veículos elétricos em operação. Comparativamente, startups em estágios embrionários receberam aportes milionários no exterior – algumas até abriram capital antes de entregar os primeiros veículos. Portanto, considerando a maturidade de Eletra, tentar captar investimentos semelhantes seria possibilidade para impulsionar ainda mais os negócios?

Iêda – Com certeza, é uma disparidade muito grande. De uns tempos para cá, buscamos parcerias para disputar esse mercado. Mas o que a gente vê quando se pensa em Brasil, em empresa brasileira, os investidores olham com certa desconfiança. Talvez pela própria dinâmica do mercado brasileiro. Temos as tecnologias de elétricos, de carregadores, em operação há mais de 25 anos. Com tecnologia desenvolvida no Brasil. Isso deveria ser um cartão de visita. Mas a situação nacional influencia nesse mercado. Principalmente no setor de ônibus. No setor de cargas as oportunidades são maiores. Porque tem menos amarrações. A decisão é do cliente final. Não é tão influenciado por questões políticas como nos ônibus. Nos ônibus, infelizmente, não é só a questão da tecnologia.

Zev.News – Apesar dos desafios, as perspectivas para o mercado de comerciais elétricos são bastante promissoras. Então, quais os próximos passos de Eletra?

Iêda – Entraremos na área de manutenção e monitoramento de frotas. Entraremos com peso. Chamaremos toda a responsabilidade de manutenção de frotas. E também na linha de componentes. Fizemos os carregadores. E existem outros componentes que hoje são importados, como conversores (invertem a corrente contínua das baterias (DC) para alternada (AC) dos motores). Trabalhamos na nacionalização desses componentes para o mercado como um todo. Poderemos ser fornecedores de componentes de alguns componentes hoje não fabricados no Brasil.

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