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Bernardo Durieux, Voltbras: “O maior gargalo da mobilidade elétrica ainda é o custo do veículo”

Aliada à queda de preços dos carros, crescimento dos pontos de recargas é vital para adoção dos elétricos, e gestão dos carregadores essencial para lucratividade dos operadores e boa experiência dos usuários

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O foco em software da Voltbras veio após a percepção de um problema: falta de soluções brasileiras para postos de recargas – Foto: Divulgação Voltbras

Infraestrutura para recargas é determinante para adoção dos veículos elétricos. E aliada à instalação dos equipamentos, gestão é essencial à operação. Necessária para garantir boa experiência aos usuários, medir o uso das estações e identificar possíveis melhorias nas redes.

É uma indústria complexa. Com léxico próprio. Formado por siglas como CPO (Charge Point Operators) – operadores dos pontos de recarga –, eMSP (Emobility Service Provider) – aplicativos utilizados para as recargas – e Backend Provider, empresas fornecedoras de soluções nestas duas pontas. Classe à qual pertence Voltbras.

Fundada em 2018, a startup catarinense desenvolveu soluções completas para gestão da infraestrutura de recargas. Além da esfera técnica, a startup mostrou agilidade para “pivotar” no momento certo, e habilidade para atrair parceiros de peso e viabilizar a empreitada.

Para conhecer os detalhes desta trajetória, traçar o panorama atual do mercado de recargas e vislumbrar o futuro, Zev.News entrevistou Bernardo Durieux, diretor executivo e cofundador da Voltbras. Que ao lado de Rodolfo Levien, diretor comercial, Carlos Libardo, diretor de tecnologia e Eduardo Henke, Tech Lead, comandam a startup.

Zev.News – Bernardo, para começar o que estimulou a criação da Voltbras?

Bernardo Durieux – O que me estimulou, e aos demais sócios, foi a vontade de fazer algo pelo País. Pela sociedade. Algo que a gente se identificasse. Assim surgiu esse sonho grande de fazer algo que gerasse impacto positivo para o País. Porque a gente precisa acreditar. E especificamente na mobilidade elétrica porque um dos sócios trabalhava numa equipe de competição na universidade, e tinha conhecimento desse mercado. E eu tinha uma empresa de software, e vimos que tinha um “caldo”. Que poderíamos executar algo na mobilidade elétrica. É um segmento que caminha a passos largos. Com bastante perspectiva. Bastante potencial.

Zev.News – Voltbras é uma empresa de software. Por que optaram por esse caminho em vez da infraestrutura para recargas?

Durieux – Pouca gente sabe. Lá atrás, quando fundamos a empresa, a ideia era ter nossa própria rede para recargas. O problema era: “Precisávamos de infraestrutura para recarregar os veículos”. Porém, antes de instalar o nosso primeiro carregador, notamos a grande dificuldade na gestão, nos pagamentos. Aliás, nunca chegamos a ter um carregador. Havia softwares vindos de fora, mas muito caros, e não pensados para o Brasil ou América Latina. Decidimos fazer nossa própria tecnologia, tínhamos a veia de software. Então escolhemos esse caminho e fomos esquecendo a ideia da própria rede. Hoje somos uma empresa de software. Nem cogitamos mais trabalhar com a parte de infraestrutura.

Zev.News – As tecnologias foram desenvolvidas pela Voltbras ou adaptou-se alguma solução white label – adquiri-se a tecnologia e coloca-se a marca da empresa – ?

Durieux – Tudo é tecnologia 100% própria. Não utilizamos software de domínio público. Até contribuímos com alguns projetos (de código aberto), mas usamos tudo interno. Somos compatíveis com todos os fabricantes. E única empresa no Brasil homologada para trabalhar com todos os fabricantes (de carregadores). Desde 3 kW até 350 kW. Somos os únicos no Brasil a operar esses equipamentos de alta potência.

Zev.News – Em que momento a Voltbras entra no negócio das recargas? As empresas de recargas (CPOs) já não possuem os próprios sistemas de gerenciamento?

Durieux – Entramos no seguinte ponto: as empresas de eletropostos, que têm uma rede, geralmente não são especializadas em tecnologia. O foco é prestar um bom serviço de recargas. Têm time de manutenção. Time de campo. Time para prospectar bons lugares para instalação de carregadores. Times de atendimento ao usuário. Afinal, o usuário do veículo elétrico precisa de suporte. E se começa desde o campo até o software, corre risco grande de acabar não fazendo nada direito. As empresas cada vez mais deixam de atuar em determinadas faixas. Ou vai ser CPO. Ou vai ser MSP. Ou vai ser um backend provider. Ou vai dar atendimento. Hoje, software é algo especial. Atendimento ao cliente é algo especial. E quando a empresa quer se especializar num bom serviço de atendimento acaba contratando uma tecnologia pronta.

Quando se fala em gestão de carregadores, parece algo que entra num segundo momento: primeiro se instala os carregadores, e depois se pensa na gestão. Acontece que não é o melhor caminho. Dado que é preciso colocar os carregadores já sabendo o que se passa neles. É preciso certeza que se instalou o carregador no lugar certo. Se terá uso ou não. E economiza-se muito na manutenção do carregador (com o sistema de gestão), por que consegue reiniciar remotamente, fazer várias coisas. Por incrível que pareça, algumas redes novas já nascem com nossa tecnologia. E a partir disso crescemos juntos.

Zev.News – Voltbras tem entre os parceiros EDP, como surgiu a oportunidade e como a parceria se desenvolveu?

Durieux – EDP foi nossa primeira cliente. À época, quando batemos na porta da EDP para vender nossa solução, eramos um time pequeno. Não teríamos musculatura para atender uma empresa de grande porte. Então trabalhamos numa linha de inovação aberta, Open Innovation, onde EDP, através de seu braço de venture capital, EDP Ventures, realizou um aporte em nossa empresa, para termos um time de software grande e dedicado. E musculatura para atender um cliente grande. E o braço de mobilidade elétrica da EDP, que é EDP Smart, nós meio que cocriamos a solução que atender a EDP. Mas é aberta a outras concessionárias de energia. Apesar da EDP Ventures ser nossa acionista, atendemos outros clientes e não somos dependentes da EDP Ventures. O venture capital evoluiu muito nos últimos anos, de modo a dar independência às empresas. Ajuda a startup, mas não a deixa presa.

Zev.News – Considerando Voltbras dominar todas as partes necessárias à gestão de infraestruturas para recargas, e o tamanho do Brasil, a empresa considera desenvolver um aplicativo nacional para recargas mirando o usuário final, no estilo Plugsurfing? Ou mesmo soluções em roaming?

Durieux – A Plugsurfing é uma eMSP. É uma provedora de serviço para o usuário final. Não é nossa pretensão atuar nesse nicho, ter uma bandeira nossa, digamos. Porém, na área de roaming, sim. Já temos mais vocação, e até uma predeterminação. Porque temos toda a base de carregadores e usuários em nosso sistema central. Já temos alguns acordos em andamento, para interoperabilidade em redes que já estão na nossa base. É muito natural. E algo até oportuno, por já termos os clientes que criaram a tecnologia para isso. Não queremos ser um centralizador, a exemplo da Hubject. Que concentra diferentes tecnologias, e é focada nisso. Não nos vemos assim, nos vemos com redes conectadas a nós, mas não conectando com outras tecnologias, de outras empresas.

Zev.News – Muitos acreditam que o crescimento da mobilidade elétrica será puxado em boa medida pelas frotas. Principalmente, pelos veículos para entregas nas grandes cidades. Voltbras pretende entrar neste segmento?

Durieux – Temos um produto para frotas. Porém, estamos lançando em parceria com empresas que já fazem gestão de frotas. Há grandes players no segmento, com uma base grande de clientes, que são nossos parceiros. Esse é o nosso posicionamento para abordar esse mercado. Porque os gestores de frotas já têm soluções desde a localização do veículo, quem foi o utilizador, conexão à abertura do pedágio. Há uma série de outros benefícios nessa gestão de frotas. E nós, enquanto agentes da mobilidade elétrica, somos uma peça nesse quebra-cabeça. Nosso posicionamento é buscar parcerias com grandes frotistas, que já trabalham nesse segmento. Também creio que o segmento de frotas vem crescendo muito. Em 2021 não apostávamos muito nas frotas, mas começamos a olhar com muita atenção, porque muitas frotas nos procuraram. Em breve teremos boas novidades no segmento de frotas.

Zev.News – E quais as dificuldades na implementação da infraestrutura de recargas pelos frotistas?

Durieux – O problema da frota começa em não saber nem qual carregador comprar. Por exemplo, tem mil carros a combustão, e pensa: “E agora? Como vou carregar os carros elétricos?” Aí entramos com alguns parceiros, que trabalham com instalação, focados nisso. E conseguimos atender de ponta a ponta. Desde a instalação, nosso monitoramento, e a gestão da frota por empresas especializadas. A gente indica porque pedem. Não somos intermediários. Não é nosso negócio. Mas temos nossos parceiros. Às vezes, indicamos mais de um, para que o cliente tenha mais opções. Mas não é nosso foco. É para facilitar a vida do nosso cliente.

Zev.News – Embora haja expressivo crescimento dos pontos de recargas, o crescimento de carregadores ultrarrápidos é bem mais comedido (mais de 50 kW DC). Mas são essenciais para ampliar a adoção de carros elétricos. Você acha que este pode ser um gargalo?

Durieux – Acho que sim. Porque é um equipamento muito mais caro. E nem todas as empresas estão dispostas a investir. Mas é o fundamental. Claro, também é necessária uma infraestrutura urbana, porque eventualmente é necessário carregar o carro fora de casa. Mas quando se vai fazer um trecho longo, do Rio à São Paulo, ou de São Paulo à Curitiba, obrigatoriamente, precisará de carregadores rápidos. Ninguém vai ficar esperando 8 horas na estrada para carregar o carro. O problema é que são equipamentos caros. É preciso investir pesado para disponibilizar os carregadores. Então as empresas ficam reticentes.

Mas na minha visão o maior gargalo da mobilidade elétrica ainda é o custo do veículo. Quantas pessoas podem pagar mais de R$ 200 mil num carro? A partir do momento que mais pessoas têm carros elétricos, o negócio vai popularizar, e as redes vão surgir. Se tiver demanda, a rede até investe R$ 1 milhão (custo estimado de um eletroposto ultrarrápido) para ter um carregador. A infraestrutura de carregamento é cara, mas se paga com o uso.

Zev.News – Para fechar, qual a perspectiva de Voltbras sobre o cenário da indústria de recargas no Brasil para os próximos, digamos, 5 a 10 anos?

Durieux – O “drive” de crescimento das empresas para recargas está muito atrelado ao crescimento dos veículos elétricos. Comenta-se muito “sobre o ovo e a galinha”, mas acho que vão andar juntos. Talvez haja alguma defasagem de carregadores, talvez sobrem alguns carregadores. Vai ter esse limiar de horas o carro estar mais à frente, horas a infraestrutura estar mais à frente. Não creio que haverá uma infraestrutura 100% pronta para depois virem os carros elétricos.

Olhando para os números, gosto da projeção do Boston Consulting Group, que prevê em 2030 12% de veículos do Brasil elétricos (híbridos, híbridos recarregáveis via plugue puramente elétricos, célula de combustível e mild hybrid vehicles, inclusos veículos de passageiros e comerciais leves). E esse dado é conservador. Falamos (da instalação) de até 150 mil carregadores (até 2035).

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