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Júnior Miranda, CEO GreenV: “Nascemos planejados com o que há de melhor fora do Brasil”

A startup GreenV recebeu aporte de R$ 22 milhões, investimento que demonstra quão promissor é o segmento de recargas para veículos elétricos no Brasil

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Júnior Miranda (direita) e Marcos Nogueira planejam crescimento acelerado para GreenV nos próximos cinco anos – Foto: Divulgação GreenV

Há nova corrida automobilística global. Em disputa estão posições protagonistas na indústria transformada pela eletrificação. E a importância do resultado estende-se além do âmbito privado das empresas. Dada a magnitude dos negócios, potencialmente, impactarão economias mundo afora. O que explica incentivos e planos governamentais para a mobilidade elétrica.

Um dos pilares desta nova indústria é a infraestrutura para recargas. Como, onde e em quanto tempo os veículos serão recarregados ditarão em boa medida o ritmo da adoção da nova economia da mobilidade. Que demanda tecnologia, inovação e estratégia de implementação.

Para visualizar como o Brasil está neste cenário uma das formas enxergá-lo pelo prisma interno. Por isso Zev.News entrevistou Júnior Miranda, engenheiro eletricista e da computação, fundador e CEO da GreenV. Criada em 2020, a startup de soluções em recargas ganhou notoriedade pelo recente aporte de R$ 22 milhões. E pelo plano para em cinco anos tornar-se uma das protagonistas no mercado brasileiro de recargas.

Zev.News – A GreenV surgiu a partir da AZ Energy, empresa dedicada à venda e à instalação de carregadores para veículos elétricos. Podemos definir a GreenV como, digamos, uma ampliação da empresa?

Júnior Miranda - Exatamente. Viemos de uma empresa ainda de soluções de recargas, mas com foco em instalação e serviços. Na prática, GreenV é uma startup de tecnologia em mobilidade elétrica nascida dentro da AZ Energy. Que assume o legado de instalação, e amplia, e muito, os serviços. Com o aplicativo para encontrar os pontos de recargas e conseguir planejar uma viagem. E com o sistema para gestão dos pontos de recargas, no qual parceiros com vários pontos, como hotéis, aeroportos, hospitais e estacionamentos, poderão saber o status para garantir serviço de alto nível.

Zev.News - E o que motivou a criação da GreenV?

Júnior Miranda - Conforme fui fechando os contratos – via AZ Energy – com a Porsche, e com vários outros grandes parceiros, aconteceu que comecei a montar a equipe técnica, comercial e suporte aos clientes. E cresceu muito rápido. Chegou ao ponto do ano passado a gente fechar parceria com uma aceleradora de empresas – 10 X Digital, cujo CEO Mauro Amaral é um dos sócios da GreenV –. E falar: chega, precisamos virar a chave.

Zev.News – E como a aceleradora ajudou a estruturar o negócio?

Júnior Miranda - Com a aceleradora montamos um plano de crescimento de 5 anos. De 2021 a 2025. Nesse plano adotamos a metodologia da aceleradora. Foram meses. Fizemos todo um brainstorming de inovações. Primeiro, as ideias. Depois, pensamos em fontes de receita para a empresa dentro do mercado de mobilidade elétrica. Surgiram centenas de ideias. Filtramos e estabelecemos custos, a expectativa de receita e quanto tempo para executar. Com base nisso saímos com 70 inovações. Que viraram o plano. Qual era o objetivo? Verificar se precisávamos de grana. Porque a empresa (AZ Energy) sempre foi saudável. Mas, claro, para desenvolver tecnologia, precisamos de um projeto agressivo. E de grana. Mas quanto de dinheiro nessa etapa? Fechamos o projeto e começamos a apresentar. Na primeira reunião um fundo americano demonstrou interesse.

Zev.News – E esse fundo aportou R$ 22 milhões. Qual o fundo e o que o atraiu para o investimento?

Júnior Miranda - É um fundo americano, confidencial. Mas aportou a grana. Basicamente, a premissa foi a seguinte: “Vimos acontecer nos EUA” – o crescimento do mercado de recargas. E como viram, decidiram aportar aqui. Já tínhamos um “link”, um brasileiro que tinha um “link” com esse fundo. E facilitou as negociações. Porque era alguém que já fazia negócios há anos com a gente. O pessoal (do fundo) sabe muito do mercado americano. Muito do que aconteceu em mobilidade. Viu esses movimentos no Brasil, e disseram: “Vocês são realmente muito sérios no que fazem, não à toa estão há anos com Porsche”. Não só pela marca premium, mas pela qualidade do serviço. O Porsche Taycan, primeiro (puramente) elétrico da marca lançado ano passado aqui no Brasil, é o veículo elétrico mais vendido. E todas as instalações são nossas. É uma superresponsabilidade, e a gente está entregando. E não é só Porsche, atendemos diversas empresas.

Zev.News – A GreenV desenvolveu as próprias tecnologias para o aplicativo e para o sistema de gestão dos pontos pelas empresas ou adquiriu tecnologias já existentes de empresas fora do Brasil? E o que motivou a decisão?

Júnior Miranda – Comecei a estudar os mercados “gringos”, como faziam. Já conhecia, mas precisava de benchmark profissional. Testei cada um dos aplicativos, marquei reuniões e conversei com várias pessoas, do mundo inteiro. Dos Estados Unidos, Europa, Noruega, Holanda. E chegou o momento dessa decisão que você falou. Eu tinha os orçamentos de licenciamento das plataformas “gringas”, e tinha a decisão de investir no (desenvolvimento) interno.

Qual era a grande dor? Ao trabalhar com a revenda de plataforma externa, há pouca flexibilidade. O software não é seu, não é customizado para o país, para a cidade. Mas se ganha tempo, porque já tem bastante coisa desenvolvida. Decidimos ir por um caminho um pouco mais doloroso, mas que a médio e longo prazo acreditamos de muito mais resultados. Começamos o desenvolvimento (interno) há alguns meses. Até o final do ano vamos lançar tanto o aplicativo quanto o software de gestão. Nascemos planejados com o que há de melhor fora do Brasil. E outra, temos grandes empresas como clientes. Que querem soluções customizadas. Precisamos de algo que atenda essas empresas. E por isso preciso de uma equipe própria. Tenho uma equipe de quase 20 pessoas, entre profissionais alocados aqui no escritório e terceiros que prestam serviços. Engenharia, hardware e software.

Zev.News - A gama de clientes que GreenV pode atender é ampla. De residências, passando por clientes corporativos até frotas. Resumidamente, como funciona o modelo de negócios?

Júnior Miranda - Há a venda tradicional e o aluguel da solução de recarga. É como se fosse uma mobilidade elétrica as a service. Porque o frotista quer 1, 2, 3 carregadores... Daqui a pouco quer 10. Como sei o funcionamento da infraestrutura, e tenho total experiência em serviços, entrego um modelo com baixo investimento justamente para que (o cliente) consiga se planejar a longo prazo. Fechamos um contrato, e toda a solução é nossa. Por exemplo, deu problema no carregador, trocamos, consertamos, resolvemos tudo. Desde software até equipamento.

Zev.News – É ponto pacífico que o mercado de recargas crescerá no Brasil de modo exponencial nos próximos anos. Então, como alguém que está no mercado, como você acredita que será esse desenvolvimento para além das instalações residenciais?

Júnior Miranda – Claro, ainda teremos muitas instalações residenciais. Mas está começando um movimento muito interessante de condomínios e mercado corporativo. O mercado corporativo começou a acordar para o movimento da mobilidade. E temos feito instalações corporativas. E um processo que está acontecendo, e vai acontecer, é a eletrificação de frotas e eletrificação de concessionários.

Zev.News – Você citou um ponto pouco mencionado: concessionárias de veículos. Como e por que as lojas se tornarão mercado significativo para as empresas de recargas?

Júnior Miranda - Não é só instalar na casa do cliente. Precisa suporte para esse cliente. E a concessionária precisa se preparar. Após reparar um carro na oficina, vai entregar com a bateria vazia? Não dá. Se o cliente precisar recarregar, por que não passar na loja? De repente, compra um carro novo. Outra coisa, na entrega do veículo é preciso explicar ao cliente como funciona o carregamento. Uma visão geral básica. Ou seja, a concessioná precisa se preparar. Para você ter ideia, nós preparamos todas as primeiras concessionárias BMW, lá por 2014 a 2016. Todas as concessionárias Porsche. Todas as concessionárias Mercedes. Todas as Nissan. Já eletrificamos muita coisa.

Zev.News – E quais os tipos de desafios envolvidos nessa expansão fora do segmento residencial?

Júnior Miranda – Não estamos falando de projeto de pequeno porte. Porque uma coisa é instalar o carregador residencial. E o residencial já falamos (da potência) de um chuveiro, que não é tão pouco. Agora, imagine quando você pensa em alguns carregadores. Carregadores semirrápidos. Recargas rápidas. Ou seja, é uma potência maior. É necessário uma engenharia. Não é só um eletricista que resolve esse tipo de coisa. Precisa colocar software para administrar a potência da entrega da energia considerando os limites do local.

Zev.News – O mercado brasileiro parece estar resolvendo a demanda de recargas residenciais, corporativas e semipúblicas. E as recargas ultrarrápidas nas estradas (carregadores com mais de 50 kW DC)? Como a infraestrutura pode ser estimulada?

Júnior Miranda - Vejo da seguinte forma: é necessário iniciativa privada e pública. Acredito que esse é o caminho para se desenvolver o mercado. Por que estou falando isso? Há ações que o governo pode fazer para incentivar, mas também é necessário iniciativa privada. Consórcios para financiar isso. Já existem movimentos. Existem conversas entre players do mercado. Para justamente pensar em corredores ultrarrápidos pelo País. Teve o incentivo da Aneel, com a chamada 22, com 30 projetos. E estamos participando de vários deles com corredores. Foi excelente, louvável. Mas não é suficiente. E outra, quando você coloca um carregador, dois carregadores, a gente está pensando num start. Não está pensando num pacote de serviços completo, com vários carregadores, que acompanhem a frota. Que apesar de pequena, aponta para crescimento exponencial. O mercado como um todo precisa investir mais tempo, pensar em projetos de longo prazo.

Zev.News – E na outra ponta? No preço do carro. Será que incentivar a aquisição por meio da redução de preços com benefícios fiscais não estimularia o desenvolvimento do mercado de recargas? E o próprio mercado de carros elétricos.

Júnior Miranda - Com certeza. Temos o problema do “ovo e da galinha”. Se há muita infraestrutura, naturalmente, as pessoas sentem-se mais confiantes para comprar os veículos. Por outro lado, se há muitos carros, os empreendedores irão se motivar a preencher a lacuna da infraestrutura. Isso é fato. Acontece. E vai continuar acontecendo. Quando acontece incentivo fiscal, como aconteceu no estado de São Paulo (a partir de 1 de janeiro de 2022 o ICMS de carros elétricos será reduzido de 18% para 14.5%), vai ter mais carro elétrico no mercado. Lembro de 3 anos atrás. Algumas montadoras seguraram o lançamento de veículos elétricos. Justamente em função dos impostos. Foi nítido. Não iriam lançar sem um sinal do governo. Por exemplo, se tinha montadora esperando o sinal, e o governo federal sinalizou positivamente: “Agora fechou minha conta, acho que dá para entrar e colocar o carro no mercado”. Vi isso acontecendo, por exemplo, no Salão do Automóvel em 2018, quando entraram vários carros elétricos. Poderia não ter acontecido.

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